Algumas coisas a gente até tenta engolir, mas tem outras que não dá. Estava eu hoje no trem, a caminho do trabalho e, de repente, entra justamente no vagão em que me encontro uma turminha mais ou menos com uma conversa que rendeu até um post. Não o assunto da conversa, mas a maneira como ela aconteceu. E não que eu tenha o costume de ouvir a conversa de todo mundo também, mas às vezes é inevitável não ouvir, principalmente quando alguém “fala gritando” e ao mesmo tempo ouve aquela música alta ou do fone de ouvido, ou do próprio celular.
Sinceramente, se eu não conhecesse as gírias dessa “Paulicéia Desvairada”, certamente precisaria de um bom dicionário para entender o diálogo. Tem umas que quando ouço, tenho vontade de sair correndo e dar a volta pelo mundo. Não quero dizer para que falemos como o Fernando Pessoa ou a Clarice Lispector, mas é que não consigo digerir determinadas expressões nem tomando sal de fruta.
Por exemplo, “mano”. Esse termo, juntamente com o seu feminino, “mina”, embrulha qualquer estômago. Quando a turminha mais ou menos não tinha mais termos para se dirigir aos outros integrantes, ouço a palavra “truta”. Sinceramente, me assustei. Não por ter ouvido tal palavra, mas por ter pensado em como aquele ser enxerga bem, ao avistar uma truta enquanto o trem beirava as margens do Rio Pinheiros. Enfim, não era um peixe, era o amigo daquele ser mais ou menos. Mas truta é um peixe não é?! Será que o amigo daquele ser é Santista? Bom, isso é assunto para outra discussão.
“Mano” até que às vezes passa, pior ainda é quando aparecem sinônimos e adjetivos para esse mesmo termo. Você já deve conhecer os flanelinhas, “mano guardador de carro” para os íntimos. Quando você vai estacionar o seu lindo carrinho na rua, se não pagar para o “mano” que trabalhosamente olhou o seu veículo, é capaz de se lembrar do rosto dele para sempre por causa de um lindo risco ou qualquer outra avaria no seu veículo. Além disso, ele quer te cobrar “dé reá e, ao pagar, você escuta: “valeu tia!”, isso se for mulher. No caso dos homens, além daqueles três tapinhas nas costas, você ouve: valeu “amigão”, ou “chefia”, “brow”, “grande”, “campeão’ (esse é muito bom, para levantar a auto-estima mesmo), “irmãozinho” e mais outros. Só aqui você já tem 50% de um peculiar vocabulário.
Apesar de não gostar muito “da naite”, também ouço algumas pérolas em locais apinhados de “playboyzinhos’. Balada, urgh! “Cair na balada”, meu Deus! Nesses lugares, além de agüentar muito papo furado, você ainda ouve daquele “playboy”, até bonitinho, mas só de boca fechada e sem mascar chiclete: de onde tu é? E você, se for daqui da capital, responde: “São Paulo”. E ele: ‘Ah é, de “Sampa” mesmo? Legal!”. Que mania que eles têm de abreviar os nomes das cidades. As que mais ouço, além de “Sampa”, é “Floripa”, “Belô”, “Curita”, “Errejota”…só de lembrar já pressinto um começo de infarto.
Voltando ainda para a história da turminha mais ou menos, tinha um conhecido (vamos dizer assim) de um deles que, aparentemente, dava a entender que não se viam há um bom tempo:
“Véio”: – “Então “mano”, e aí? “Trampando” muito?.
“Mano”: – “Veio”, cê num tem noção! Mil grau! To trampando de dia e fazendo “facu” de noite, tá ligado? (Neste momento penso em como a tecnologia atinge as pessoas. Elas ligam e desligam, num botão!)
“Veio”: – “É mermo?
“Mano”: – É quente “veio”.
“Veio”: – Firmeza mano. Vô nessa aí! Vô dá um corre que tô em cima da hora. Fui!”.
Essas expressões viu?! Insuportáveis! E o pior é que se espalharam mais rápido do que qualquer outra doença. Já ouvi as mais variadas gírias de pessoas que nem sonhava. Bem, melhor não falar disso.
Foi mal aí, “mano”!




