Setembro 2007


Algumas coisas a gente até tenta engolir, mas tem outras que não dá. Estava eu hoje no trem, a caminho do trabalho e, de repente, entra justamente no vagão em que me encontro uma turminha mais ou menos com uma conversa que rendeu até um post. Não o assunto da conversa, mas a maneira como ela aconteceu. E  não que eu tenha o costume de ouvir a conversa de todo mundo também, mas às vezes é inevitável não ouvir, principalmente quando alguém “fala gritando” e ao mesmo tempo ouve aquela música alta ou do fone de ouvido, ou do próprio celular. 

Sinceramente, se eu não conhecesse as gírias dessa “Paulicéia Desvairada”, certamente precisaria de um bom dicionário para entender o diálogo. Tem umas que quando ouço, tenho vontade de sair correndo e dar a volta pelo mundo. Não quero dizer para que falemos como o Fernando Pessoa ou a Clarice Lispector, mas é que não consigo digerir determinadas expressões nem tomando sal de fruta.

Por exemplo, “mano”. Esse termo, juntamente com o seu feminino, “mina”, embrulha qualquer estômago. Quando a turminha mais ou menos não tinha mais termos para se dirigir aos outros integrantes, ouço a palavra “truta”. Sinceramente, me assustei. Não por ter ouvido tal palavra, mas por ter pensado em como aquele ser enxerga bem, ao avistar uma truta enquanto o trem beirava  as margens do Rio Pinheiros. Enfim, não era um peixe, era o amigo daquele ser mais ou menos. Mas truta é um peixe não é?! Será que o amigo daquele ser é Santista? Bom, isso é assunto para outra discussão.

“Mano” até que às vezes passa, pior ainda é quando aparecem sinônimos e adjetivos para esse mesmo termo. Você já deve conhecer os flanelinhas, “mano guardador de carro” para os íntimos. Quando você vai estacionar o seu lindo carrinho na rua, se não pagar para o “mano” que trabalhosamente olhou o seu veículo, é capaz de se lembrar do rosto dele para sempre por causa de um lindo risco ou qualquer outra avaria no seu veículo. Além disso, ele quer te cobrar “dé reá e, ao pagar, você escuta: “valeu tia!”, isso se for mulher. No caso dos homens, além daqueles três tapinhas nas costas, você ouve: valeu “amigão”, ou “chefia”, “brow”, “grande”, “campeão’ (esse é muito bom, para levantar a auto-estima mesmo), “irmãozinho” e mais outros. Só aqui você já tem 50% de um peculiar vocabulário.

Apesar de não gostar muito “da naite”, também ouço algumas pérolas em locais apinhados de “playboyzinhos’. Balada, urgh! “Cair na balada”, meu Deus! Nesses lugares, além de agüentar muito papo furado, você ainda ouve daquele “playboy”, até bonitinho, mas só de boca fechada e sem mascar chiclete: de onde tu é? E você, se for daqui da capital, responde: “São Paulo”. E ele: ‘Ah é, de “Sampa” mesmo? Legal!”. Que mania que eles têm de abreviar os nomes das cidades. As que mais ouço, além de “Sampa”, é “Floripa”, “Belô”, “Curita”, “Errejota”…só de lembrar já pressinto um começo de infarto.

Voltando ainda para a história da turminha mais ou menos, tinha um conhecido (vamos dizer assim) de um deles que, aparentemente, dava a entender que não se viam há um bom tempo:

“Véio”: – “Então “mano”, e aí? “Trampando” muito?.

“Mano”: – “Veio”, cê num tem noção! Mil grau! To trampando de dia e fazendo “facu” de noite, tá ligado? (Neste momento penso em como a tecnologia atinge as pessoas. Elas ligam e desligam, num botão!)

“Veio”: – “É mermo?

“Mano”: – É quente “veio”.

“Veio”: – Firmeza mano. Vô nessa aí! Vô dá um corre que tô em cima da hora. Fui!”.

Essas expressões viu?! Insuportáveis! E o pior é que se espalharam mais rápido do que qualquer outra doença. Já ouvi as mais variadas gírias de pessoas que nem sonhava. Bem, melhor não falar disso.

Foi mal aí, “mano”!

Quando você trabalha em frente do computador por muito tempo acaba ficando mal acostumado com as facilidades que ele proporciona. Talvez isso seja ruim, mas não sei se consigo funcionar sem essa caixa barulhenta parecendo o som de uma turbina, essa tela que só deixa minha vista cansada e esse teclado recheado de botões – sendo que ainda não conheço a função de alguns. E depois de ler “seu computador está sendo desligado”, ou coisas do gênero, não consigo abandonar a sua companhia, continuo com a mentalidade de um computador.

Constantemente, quero fazer as mesmas ações que faço quando estou frente a frente com a máquina, só que adaptadas na minha rotina. Já pensou poder apertar nossos botões inexistentes para melhorar, consertar e adaptar diversas coisas que acontecem com a gente? Seria tudo tão simples e facilitaria muito, mas muito mesmo.

Nessas horas mais erradas, como na hora do banho, no trânsito, nos momentos antes de pegar no sono, nos meus sonhos, eu costumo ter grandes idéias. Se a gente pudesse salvar tudo seria tão bom, e ainda dividir tudo por categorias, pastas e sub-pastas, para organizar melhor a nossa mente, os nosso pensamentos.

Quando fazemos uma tremenda besteira, como um comentário impróprio, um trem no sentido errado, ou quando vamos mal na prova, quando nos arrependemos de fazer umas comprinhas assim que saiu do shopping, já pensou poder apertar o botão “desfazer”? Falou o que não devia? Levou um fora? Desfazer. E pronto. É só recomeçar.

Não é todo mundo que tem a chance de começar tudo do zero, e quase ninguém toparia isso. Mas se isso fosse possível não seria incrível? Tornar tudo menos complicado com apenas um botão para recomeçar o que tínhamos estragado, reiniciar o que começamos de um jeito equivocado e não precisar ter uma lâmpada mágica para saber que o que começa errado não tem final feliz.

O botão deletar também nos seria muito útil para tirar da memória muitas coisas. Todo mundo tem alguma coisa que gostaria de esquecer para sempre. Eu queria apagar algumas informações como a banda vergonhosa que curtia dez anos atrás, o corte de cabelo que eu usava no colégio, aquele chefe chato, as pessoas mal-humoradas e infelizes e todas as brigas inúteis com a família, o namorado…

E a opção travar então? Quando te pedem uma tarefa chata para ontem e você pudesse fazer um “flan” e de repente, aparecesse na sua testa uma mensagem “executei uma operação ilegal e preciso ser desligado”. Não seria o máximo? E ainda daríamos uma resposta como “foi mal, mas não dá, eu travei”, que nem o Chaves, só que pensando bem, só não seria legal voltar a si com um balde de água gelada. Vou pensar numa solução.

Copiar e colar, dentre todas, seria a função mais gostosa. Você, sentado no sofá na parte de cima da sua casa, e a geladeira no andar de baixo. Uma vontade imensa de tomar um danoninho e de repente, você dá um Crtl+C nele e um Crtl+V para que apareça na sua mão. E o controle da TV que caiu em baixo do sofá? Copiar e colar resolve. É um comando preguiçoso e de comodidade, mas só de pensar em não precisar sair do quentinho quando bater aquela fome, aquela sede de madrugada, seria perfeito!