Acabei de ler o livro Metamorfose, do Franz Kafka. O autor retrata os nossos medos, e, acima de tudo, o receio do seu personagem Gregor Samsa não ser aceito como igual. Ele mostra, com efeito, o desespero do homem perante o absurdo do mundo.
Genial.
Para entender: Gregor Samsa, a personagem principal do livro sofre uma transformação que o torna um inseto gigante, um ser grotesco, forma essa, bem ousada de nos levar à uma análise dos nossos próprios atos. Com essa metamorfose, emergem o medo da sociedade em aceitar as diferenças, uma vez que a própria família de Gregor, vendo a sua brusca e inesperada tranformação, o marginaliza, com exceção da irmã, que apesar do repúdio, o tenta alimentar e perceber. Gregor, condenado pelo mundo que não o compreende, acaba confinado a um pequeno quarto até à sua morte. O personagem, que antes de sua mutação era um caixeiro-viajante com projetos pessoais e outros para a família, tornou-se incapacitado e alterado fisicamente, tendo suas planificações irrealizáveis.
O livro descreve os passos e pensamentos de Gregor já como inseto e o fato dele se interrogar e não entender uma realidade social tão hostil. No processo de metamorfose, ele deixa de ser compreensível – deixa de emitir a sua voz humana, passando a emitir um sibilar de inseto, além de seus movimentos não passarem de um silvar, mas, no entanto, para Gregor o mundo continua a ser claro, perceptível em gestos e linguagem. Ele próprio apenas percebe de que já não o compreendem pelas reações externas, e na sua cabeça, a voz continua igual.
A Metamorfose, lança um olhar feroz sobre a marginalização – não no sentido que lhe atribuímos hoje, mas no sentido de alienação do indivíduo. Com base nisso, será que nós também somos iguais ao Gregor Samsa?
Ele, ao perceber que se transformou em um inseto, tudo o que pensa é em não decepcionar a família e começa a aceitar a idéia de ser um inseto, da mesma forma como aceitamos a maioria das coisas.
Eu não sei vocês, mas acho temos sofrido com essa metamorfose, e constantemente. Sinto um Gregor Samsa dentro de mim, porque sou um inseto perante a destruição das matas brasileiras, conforme saiu hoje no Estadão; sou um inseto perante ao nosso governo, perante ao molusco-presidente brasileiro que acho que nem sabe a diferença do joio e do trigo; sou inerte perante os colunismos sociais, que dizem que sociedade é quem tem o “rabo” cheio de dinheiro e a cabeça cheia de futilidades. Eu condeno muitas coisas que acontecem, tento fazer a minha parte, mas, às vezes, é pouco. Somos poucos contra muitos? Ou muitos (com pouco) contra poucos (com muito)?
E ainda, no final da História, Gregor Samsa padece após tantas injustiças e a certeza de que tentou, mas não conseguiu. Será esse o nosso fim? Se for, é muito triste… Essa obra do Kafka, é, sobretudo, uma história de alerta à sociedade e aos comportamentos humanos.